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01/08/2014 12h33
Homenagem a João Ubaldo Ribeiro - A VIDA É UM ETERNO AMANHÃ

A VIDA É UM ETERNO AMANHÃ


As traduções são muito mais complexas do que se imagina. Não me refiro a locuções, expressões idiomáticas, palavras de gíria, flexões verbais, declinações e coisas assim. Isto dá para ser resolvido de uma maneira ou de outra, se bem que, muitas vezes, à custa de intenso sofrimento por parte do tradutor. Refiro-me à impossibilidade de encontrar equivalências entre palavras aparentemente sinônimas, unívocas e univalentes. Por exemplo, um alemão que saiba português responderá sem hesitação que a palavra portuguesa "amanhã" quer dizer "morgen". Mas coitado do alemão que vá para o Brasil acreditando que, quando um brasileiro diz "amanhã", está realmente querendo dizer "morgen". Raramente está. "Amanhã" é uma palavra riquíssima e tenho certeza de que, se o Grande Duden fosse brasileiro, pelo menos um volume teria de ser dedicado a ela e outras, que partilham da mesma condição.

"Amanhã" significa, entre outras coisas, "nunca", "talvez", "vou pensar", "vou desaparecer", "procure outro", "não quero", "no próximo ano", "assim que eu precisar", "um dia destes", "vamos mudar de assunto", etc. e, em casos excepcionalíssimos, "amanhã" mesmo. Qualquer estrangeiro que tenha vivido no Brasil sabe que são necessários vários anos de treinamento para distinguir qual o sentido pretendido pelo interlocutor brasileiro, quando ele responde, com a habitual cordialidade nonchalante, que fará tal ou qual coisa amanhã. O caso dos alemães é, seguramente, o mais grave. Não disponho de estatísticas confiáveis, mas tenho certeza de que nove em cada dez alemães que procuram ajuda médica no Brasil o fazem por causa de "amanhãs" casuais que os levam, no mínimo, a um colapso nervoso, para grande espanto de seus amigos brasileiros - esses alemães são uns loucos, é o que qualquer um dirá.

A culpa é um pouco dos alemães, que, vamos admitir, alimentam um número excessivo de certezas sobre esta vida incerta, número quase tão grande como a quantidade exasperante de preposições que freqüentam sua língua (estou estudando "auf" e "au" no momento, e não estou entendendo nada). São o contrário dos brasileiros, a maior parte dos quais não tem a menor idéia do que estará fazendo na próxima meia hora, quanto mais amanhã.

Talvez tudo se reduza a uma questão filosófica sobre a imanência do ser, o devenir, o princípio de identidade e outros assuntos do quais fingimos entender, em coquetéis desagradáveis onde mentimos a respeito de nossas leituras e nossos tempos na Faculdade. No plano prático, contudo, a coisa fica gravíssima. Se o Brasil tivesse fronteiras com a Alemanha, não digo uma guerra, mas algumas escaramuças já teriam eclodido, com toda a certeza - e a Alemanha perderia, notadamente porque o Brasil não compareceria às batalhas nos horários previstos, confundiria terça-feira com sexta-feira, deixaria tudo para amanhã, falsificaria a assinatura oficial no documento de rendição, receberia a Wehrmacht com batucadas nos momento, mais inadequados e estragaria tudo organizando almoços às seis horas da tarde.

Falo por experiência própria. When in Rome do as the Romans do ditado que deve ter uma versão latina muito mais chique, mas, infelizmente, não disponho aqui de meus livros de citações, para dar a impressão aos leitores de que leio Ovídio e Horácio no original. Mas, em inglês ou em latim, acho esse um pensamento de grande sabedoria e procuro segui-lo à risca, na minha atual condição de berlinense, tanto assim que, não fora minha tez trigueira e meu alemão abestalhado, ninguém me distinguiria, fosse por traje ou maneiras, dos outros berlinenses bebericando uma cervejinha ali na Adenauerplatz.

Fica tudo, porém, muito difícil em certas ocasiões, como hoje mesmo. O telefone tocou, atendi, falou um alemão simpático e cerimonioso do outro lado, querendo saber se eu estaria livre para uma palestra no dia 16 de novembro, quarta-feira, às 20:30h. Sei que é difícil para um alemão compreender que esse tipo de pergunta é ininteligível para um brasileiro. Como alguém pode marcar alguma coisa com tanta precisão e antecedência, esses alemães são uns loucos. Mas não quis ser indelicado e, como sempre, recorri a minha mulher.

- Mulher - disse eu, depois de pedir que o telefonador esperasse um bocadinho. - Eu tenho algum compromisso para o dia 16 de novembro, quarta-feira, às 20:30h?

- Você está maluco? - disse ela. - Quem é que pode responder a esse tipo de pergunta?

- Eu sei, mas tem um alemão aqui querendo uma resposta.

- Diga a ele que você responde amanhã.

- E quando ele telefonar amanha? Ele é alemão, ele vai telefonar amanhã, ele não sabe o que quer dizer amanhã.

- Ah, esses alemães são uns loucos. Você é escritor, invente uma resposta poética, diz a ele que a vida é um eterno amanhã.

Achei uma idéia interessante, mas não a usei, apenas disse que ele telefonasse amanhã. Mas claro que não sei o que dizer amanhã e fui dormir preocupado, tanto assim que ainda incomodei minha mulher com uma cotovelada. Afinal, os alemães são organizados, é uma vergonha a gente não poder planejar as coisas tão bem quanto eles. Que é que eu faço?

- Ora - respondeu ela, retribuindo já cotovelada -, pergunte a ele se os alemães planejaram a reunificação para agora. E, se ele for berlinense, pergunte se ele não preferia deixá-la para amanhã.

- Touché - disse eu, puxando o cobertor para cobrir a cabeça e resolvendo que amanhã pensaria no assunto.

 


(Um brasileiro em Berlim, 1993.)


Publicado por Akasha De Lioncourt em 01/08/2014 às 12h33
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
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01/08/2014 12h30
Homenagem a Rubem Alves - Sobre a morte e o morrer

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de

um ser humano? O que e quem a define?



Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora…



Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.



Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto…”



Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”



Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.



Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.



Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.



Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.



Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?



Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.



Muitos dos chamados “recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.



Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.



Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.



Publicado por Akasha De Lioncourt em 01/08/2014 às 12h30
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01/08/2014 12h26
Homenagem a Ariano Suassuna - Trecho de "O auto da Compadecida"

III QUADRO

 


SACRISTÃO: - Mas um cachorro morto no pátio da casa de Deus?

PADEIRO: - Morto?

MULHER (mais alto): Morto?

SACRISTÃO: - Morto, sim. Vou reclamar à prefeitura,

PADEIRO: (correndo e voltando-se do limiar) É verdade, morreu.

MULHER: - Ai, meu Deus, meu cachorrinho morreu.

(Correm todos para a direita, menos João Grilo e Chicó. Este vai para a esquerda, olha a cena que se desenrola lá fora, e fala com grande gravidade na voz.)

CHICÓ: - É verdade; o cachorro morreu. Cumpriu sua sentença encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.

JOÃO GRILO: - (suspirando) Tudo o que é vivo morre. Está aí uma coisa que eu não sabia! Bonito. Chicó, onde foi que você ouviu isso? De sua cabeça é que não saiu, que eu sei.

CHICÓ: - Saiu mesmo não, João. Isso eu ouvi um padre dizer uma vez.

MULHER: - (entrando) Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai!

JOÃO GRILO: - (mesmo tom) Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! (Dá uma cotovelada em Chicó)

CHICÓ: (obediente) Ai, ai, ai, ai, ai,! Ai, ai, ai, ai, ai! (Essa lamentação deve ser mal representada de propósito, ritmada como choro de palhaço de circo)

SACRISTÃO: - (entrando, com o padre e o padeiro) Que é isso, que é isso? Que barulho é esse na porta da casa de Deus?

PADRE: - Todos devem se resignar.

MULHER: - Se o senhor tivesse benzido o bichinho, a essas horas ele ainda estava vivo.

PADRE: - Qual, qual, quem sou eu?

MULHER: - Mas tem uma coisa, agora o senhor enterra o cachorro.

PADRE: - Enterro o cachorro?

MULHER - Enterra e tem que ser em latim. De outro jeito não serve, não é?

PADEIRO: - É, em latim não serve.

MULHER: - Em latim é que serve!

PADEIRO: É, em latim é que serve!

PADRE: - Vocês estão loucos! Não enterro de jeito nenhum.

MULHER: - Está cortado o rendimento da irmandade.

PADRE: - Não enterro.

PADEIRO: - Está cortado o rendimento da irmandade!

PADRE: - Não enterro.

MULHER: - Meu marido considera-se demitido da presidência!

PADRE: - Não enterro.

PADEIRO: - Considero-me demitido da presidência!

PADRE: - Não enterro.

MULHER: - A vaquinha vai sair daqui imediatamente!

PADRE: - Oh mulher sem coração!

MULHER: - Sem coração, porque não quero ver meu cachorrinho comido pelos urubus? O senhor enterra!

PADRE: - Ai meus dias de seminário, minha juventude heróica e firme!

MULHER: - Pão para casa do vigário só vem agora dormido e com o dinheiro na frente. Enterra ou não enterra?

PADRE: - Oh mulher cruel!

MULHER: - Decida-se, Padre João.

PADRE: - Não me decido coisa nenhuma, não tenho mais idade para isso. Vou é me trancar na igreja e de lá ninguém me tira. (Entra na igreja correndo)

JOÃO GRILO: - (chamando o patrão à parte) Se me dessem carta branca, eu enterrava o cachorro.

PADEIRO: - Tem a carta.

JOÃO GRILO: - Posso gastar o que quiser?

PADEIRO: - Pode.

MULHER: - Que é que vocês estão combinando aí?

JOÃO GRILO: - Estou dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro, na parte do dinheiro que ele deixou para o padre e para o sacristão.

SACRISTÃO - Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento?

JOÃO GRILO: - Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos tempos, já doente para morrer, botava uns olhos bem compridos para os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que meu patrão entendeu, com a minha patroa, e é claro que ele queria ser abençoado pelo padre e morrer como cristão. Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão prometesse que vinha encomendar a bênção e que, no caso dele morrer, teria um enterro em latim. Que em troca do enterro acrescentaria no testamento dele dez contos de réis para o padre e três para o sacristão.

SACRISTÃO: - (enxugando uma lágrima) Que animal inteligente! Que sentimento nobre! (Calculista) E o testamento? Onde está?

JOÃO GRILO: - Foi passado em cartório, é coisa garantida. Isto é, era coisa garantida, porque agora o padre vai deixar os urubus comerem o cachorrinho e se o testamento for cumprido nessas condições, nem meu patrão nem minha patroa estão livres de serem perseguidos pela alma.

CHICÓ: - (escandalizado) Pela alma?

JOÃO GRILO: - Alma não digo, porque acho que não existe alma de cachorro, mas assombração de cachorro existe e é uma das mais perigosas. E ninguém quer se arriscar assim a desrespeitar a vontade do morto.

MULHER: - (duas vezes) Ai, ai, ai, ai, ai!

JOÃO GRILO E CHICÓ, mesma cena.

SACRISTÃO: - (cortante) Que é isso; que é isso? Não há motivo para essas lamentações. Deixem tudo comigo. (Entra apressadamente na igreja).

PADEIRO: - Assombração de cachorro? Que história é essa?

JOÃO GRILO: - Que história é essa? Que história é essa é que o cachorro vai se enterrar é em latim.

PADEIRO: - Pode ser que se enterre, mas em assombração de cachorro eu nunca ouvi falar.

CHICÓ: - Mas existe. Eu mesmo já encontrei uma.

PADEIRO: - (temeroso) Quando? Onde?

CHICÓ: - Na passagem do riacho de Cosme Pinto.

PADEIRO: - Tinham me dito que o lugar era assombrado, mas nunca pensei que se tratasse de assombração de cachorro.

CHICÓ: - Se o lugar é assombrado, não sei. O que eu sei é que eu ia atravessando o sangrador do açude e me caiu do bolso n'água uma prata de dez tostões. Eu ia com meu cachorro e já estava dando a prata por perdida, quando vi que ele estava assim como quem está cochichando com outro. De repente o cachorro mergulhou, e trouxe o dinheiro, mas quando fui verificar só encontrei dois cruzados.

PADEIRO: - Oi! E essas almas de lá têm dinheiro trocado?

CHICÓ: - Não sei, só sei que foi assim. (O sacristão e o padre saem da igreja)

SACRISTÃO: - Mas eu não já disse que fica tudo por minha conta?

PADRE: - Por sua conta como, se o vigário sou eu?

SACRISTÃO: - O vigário é o senhor, mas quem sabe quanto vale o testamento sou eu.

PADRE: - Hem? O testamento?

SACRISTÃO: - Sim, o testamento.

PADRE: - Mas que testamento é esse?

SACRISTÃO: - O testamento do cachorro.

PADRE: - E ele deixou testamento?

PADEIRO: - Só para o vigário deixou dez contos.

PADRE: - Que cachorro inteligente! Que sentimento nobre!

JOÃO GRILO: - E um cachorro desse ser comido pelos urubus! É a maior das injustiças.

PADRE: - Comido, ele? De jeito nenhum. Um cachorro desse não pode ser comido pelos urubus.

(Todos aplaudem, batendo palmas ritmadas e discretas, e o padre agradece, fazendo mesuras. Mas de repente lembra-se do Bispo.)

 

PADRE: - (aflito) Mas que jeito pode-se dar nisso? Estou com tanto medo do bispo! E tenho medo de cometer um sacrilégio!

SACRISTÃO: - Que é isso, que é isso? Não se trata de nenhum sacrilégio. Vamos enterrar uma pessoa altamente estimável, nobre e generosa, satisfazendo, ao mesmo tempo, duas outras pessoas altamente estimáveis (aqui o padeiro e a mulher fazem uma curvatura a que o sacristão responde com outra igual), nobres (nova curvatura) e, sobretudo, generosas (novas curvaturas). Não vejo mal nenhum nisso.

PADRE: - É, você não vê mal nenhum, mas quem me garante que o bispo também não vê?

SACRISTÃO: - O bispo?

PADRE: - Sim, o bispo. É um grande administrador, uma águia a quem nada escapa. JOÃO GRILO: - Ah, é um grande administrador? Então pode deixar tudo por minha conta, que eu garanto.

PADRE: - Você garante?

JOÃO GRILO: - Garanto. Eu teria medo se fosse o anterior, que era um santo homem. Só o jeito que ele tinha de olhar para a gente me fazia tirar o chapéu. Mas com esses grandes administradores eu me entendo que é uma beleza.

SACRISTÃO: - E mesmo, não será preciso que Vossa Reverendíssima intervenha. Eu faço tudo.

PADRE: - Você faz tudo?

SACRISTÃO: - Faço.

MULHER: - Em latim?

SACRISTÃO: - Em latim.

PADEIRO: - E o acompanhamento?

JOÃO GRILO: - Vamos eu e o Chicó. Com o senhor e sua mulher, acho que já dá um bom enterro.

PADEIRO: - Você acha que está bem assim?

MULHER: - Acho.

PADEIRO: - Então eu também acho.

SACRISTÃO: - Se é assim, vamos ao enterro. (João Grilo estende a mão a Chicó que a aperta calorosamente) Como se chamava o cachorro?

MULHER: - (chorosa) Xaréu.

SACRISTÃO: - (Enquanto se encaminha para a direita, em tom de canto gregoriano) Absolve, Domine, animas omnium fidelium defunctorum ab omni vinculi delictorum.

TODOS: - Amém.

 

(Saem todos em procissão, atrás do sacristão, com exceção do padre, que fica um momento silencioso, levando depois a mão à boca, em atitude angustiada, e sai correndo para a igreja.)

 

(Auto da Compadecida, 1957.)

 

 


Publicado por Akasha De Lioncourt em 01/08/2014 às 12h26
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01/02/2013 11h10
Coldplay - Viva La Vida (Vídeo oficial)


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01/02/2013 11h00
Nightwish para acariciar os ouvidos


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