Bistrô da Poesia
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Textos

A vida talvez seja uma longa viagem de trem.

Embarcamos sem conhecer todas as estações, carregando uma mala costurada por escolhas. O destino não nos espera pronto: vai sendo desenhado pelos trilhos que aceitamos seguir, pelos caminhos que atravessamos e pelas pessoas que, durante algum tempo, dividem conosco o mesmo vagão.

Algumas chegam como aprendizado. Sentam-se diante de nós, abrem janelas, fecham portas, oferecem flores ou deixam cicatrizes. Ensinam, pelo afeto ou pela ausência dele, que certas coisas precisam nascer diretamente de nós. Coragem, limites, dignidade e amor-próprio não podem ser terceirizados.

Quando a lição termina, essas pessoas descem em alguma estação no meio do caminho. Não seguem até o final porque não vieram para permanecer. Vieram para despertar alguma parte de nós que ainda dormia.

Outras mudam de vagão, mas nunca de lugar em nossa vida. A distância pode alongar os trilhos; o silêncio pode ocupar dias, meses ou até anos. Nem sempre conversamos, nem sempre conseguimos estar presentes, mas sabemos que elas continuam no mesmo trem. Há afetos que não precisam ocupar diariamente o assento ao nosso lado para permanecerem inteiros.

Há também aqueles entre os quais nascemos: a família que, segundo aquilo em que acredito, escolhemos antes mesmo do embarque. São nossas raízes em movimento, corações que pulsam fora do nosso peito e, ao mesmo tempo, dentro dele. São amores que seguem conosco enquanto lhes for permitido, mesmo quando a vida os conduz para uma estação antes da nossa.

E existem os mestres da dor.

São aqueles que chegam trazendo aprendizados amargos, mas necessários. Ferem lugares que precisavam ser vistos, revelam fragilidades escondidas e nos obrigam a descobrir forças que jamais procuraríamos em tempos de calmaria.

Quando o papel deles termina, deixamo-los na plataforma.

Não por ódio, mágoa, rancor ou desejo de vingança, mas porque a convivência deixou de ser necessária à continuidade da viagem. Algumas pessoas podem até retornar por pequenos trechos, mas já não precisam ocupar permanentemente um lugar em nosso vagão.

Perdoar não significa convidar alguém a embarcar novamente. Às vezes, perdoar é apenas seguir sem carregar a bagagem que pertence ao outro.

Há, por fim, as pessoas que escolhemos e que, estejam perto ou longe, permanecem morando dentro de nós.

São os amigos que vibram verdadeiramente com nossas vitórias, sem tentar diminuir nossa luz. Os que não passam a mão em nossa cabeça quando erramos, mas seguram nossa mão enquanto encontramos o caminho de volta. Os que apontam nossas falhas sem nos humilhar e defendem nossa ausência como se estivéssemos presentes.

A amizade verdadeira possui um pacto silencioso:

“Eu posso lhe dizer a verdade que você precisa ouvir. Mas não permitirei que alguém use a minha presença para ferir você quando não estiver aqui.”

Na última estação, normalmente desembarcamos sozinhos.

Mas nunca vazios.

Levamos cada abraço, cada ausência, cada advertência, cada perda, cada gargalhada e tudo aquilo que aprendemos entre uma parada e outra. Levamos um pouco dos que ficaram e até alguma coisa daqueles que partiram.

Então descemos do trem conscientes de que fizemos o melhor que conseguimos com o coração, a maturidade e a consciência que possuíamos em cada trecho.

E seguimos para outra forma, outra paisagem, uma nova oportunidade de aprender e evoluir.

Porque viver também é isto:

Saber quem deve ser acolhido.

Compreender quem precisa ser libertado.

Reconhecer quem, mesmo distante, continua viajando conosco.

E ter coragem para permanecer no trem quando o apito anuncia que é hora de seguir.

Akasha De Lioncourt
Enviado por Akasha De Lioncourt em 07/10/2026
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