Bistrô da Poesia
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A dor que mais dói é esta que sinto — e ela não se chama saudade. Chama-se mentira. Nasceu de uma ilusão vestida de amor, dessas que o tempo, com mãos impiedosas, despe lentamente, até deixar diante de nós apenas a verdade nua. Quando enfim a reconhecemos, já é tarde: ela cavou no peito uma sepultura e ali enterrou tudo aquilo em que acreditávamos.

Ainda assim, não desejo essa dor a ninguém. Nem mesmo àquele que a provocou em mim. Há sofrimentos tão profundos que ultrapassam qualquer vontade de vingança, porque nenhum castigo alheio seria capaz de devolver o que nos foi arrancado. Se eu morrer, levarei comigo toda a angústia de um amor que foi lindo enquanto promessa, mas nunca encontrou lugar no mundo para se realizar.

Talvez seja por isso que eu escreva. A dor, ainda viva e latejante, derrama-se pelas palavras como quem procura uma saída. Faço da escrita um abrigo, uma tentativa de abrandar este sofrimento que parece maior do que eu. Preciso acreditar que nenhum dissabor pode ser eterno, que até as feridas mais profundas, um dia, aprendem a repousar.

Mas a dor que mais dói continua comigo. Ela me entorpece, emudece e adormece. Aos poucos, apaga meus sentidos e aprisiona tudo aquilo que já não consigo externar. É como morrer sem que o corpo perceba, como desaparecer diante dos próprios olhos. E agora, nem mesmo o teu amor — se ainda existisse, se algum dia tivesse sido verdadeiro — seria capaz de me salvar.

Então, de tanto doer, a dor começa a já não doer tanto. Não porque tenha cicatrizado, mas porque trucidou os sentidos, matou a alma e destroçou todas as esperanças. Depois, exausta de tanta devastação, deitou-se sobre os meus sonhos. E a mim nada mais restou além de uma espera calma, quase silenciosa, como quem aguarda o fim de uma tempestade sabendo que já não há casa alguma para proteger.

Hoje, a dor que mais dói já não existe. Não porque tenha partido sem deixar marcas, mas porque levou consigo o melhor que havia em mim. Sou apenas a sombra daquilo que fui outrora, um vestígio caminhando entre lembranças, uma ausência habitando o próprio corpo.

A dor se foi.

E nada mais existe em mim que ela ainda possa apagar.

Akasha De Lioncourt
Enviado por Akasha De Lioncourt em 03/09/2026
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